Sobre as Datações de Documentos
Para a realização desses exames, a abordagem mais exequível e confiável é a busca por anacronismos no documento questionado. Por anacronismo, entende-se qualquer informação ou recurso técnico que não existia na data em que um documento supostamente teria sido produzido.
Embora as possibilidades de análise de anacronismos sejam muito numerosas, citaremos aqui alguns exemplos ilustrativos.
Com relação ao próprio papel, é possível verificar a sua forma de produção (manual ou em máquina), a presença de branqueadores ópticos em sua massa e até mesmo o formato de corte da folha (A4, ofício, carta, etc.). Essas informações, entretanto, são úteis apenas em documentos supostamente produzidos há várias décadas.
Outra fonte de informação para datações de documentos são os processos gráficos empregados em sua produção. Conhecendo-se a data de criação desses processos (incluindo as modernas impressoras eletrônicas) é possível verificar se um documento poderia ou não ter sido impresso em determinada data. Semelhantemente, os tipos de instrumentos de escrita empregados num documento também podem ser avaliados com essa mesma lógica.
Um recurso pouco conhecido nesse sentido é a tipologia – o estudo das fontes de caracteres. Existem milhares de fontes diferentes que podem ser empregadas na produção de textos. Cada uma delas, naturalmente, foi criada em uma determinada data e, obviamente, não poderia ser usada em um documento supostamente produzido antes dessa data.
Mas o recurso que tem se mostrado mais útil e confiável são as informações registradas no documento, justamente por sua enorme variabilidade. Citam-se como exemplos as informações geográficas, como nomes de estados, municípios, bairros e ruas – que têm sofrido mudanças ao longo do tempo. Um exemplo muito ilustre é a cidade do Rio de Janeiro, que entre os anos 1960 e 1975 constituiu o estado da Guanabara (GB) tornando-se a capital do estado do Rio de Janeiro somente em 15 de março de 1975. A propósito, você sabe qual era a capital fluminense antes disso?
No entanto, em se tratando de datação de documentos, o senso comum nos remete às análises químicas de tintas e papéis, seguindo a premissa de que esses materiais tenham diferentes constituições químicas, conforme a sua época de produção, ou ainda que sofram alterações em seus constituintes ao longo do tempo – e que tais alterações possam ser detectadas e quantificadas.
Essas premissas são procedentes, de fato.
Porém, as técnicas de datação por meio de ensaios químicos esbarram em um ou mais dos seguintes obstáculos:
- Exigem o emprego de equipamentos sofisticados e caros.
- Implicam destruição (parcial ou total) do documento a ser examinado.
- Possuem baixa reprodutibilidade, ou seja, geram resultados não necessariamente idênticos em caso de repetição das análises.
- Seus resultados são altamente dependentes das condições em que o documento examinado foi conservado, o que em muitos casos é um fator quase imponderável.
O quarto obstáculo mencionado acima é o mais importante de todos, pois ainda não foi desenvolvida nenhuma técnica de avaliação química que esteja livre da influência do modo como o documento em questão foi acondicionado ao longo de sua existência.
Como exemplo, citam-se os exames de determinação da idade de tintas de canetas por meio da quantificação de componentes voláteis. Pela lógica natural, um lançamento gráfico produzido em época mais recente apresentará concentrações mais altas desses componentes que um lançamento feito há mais tempo. Entretanto, se os lançamentos estiverem em documentos distintos e o documento mais recente foi armazenado ao ar livre, exposto ao ar atmosférico, temperaturas altas e luz solar, a volatilização de seus constituintes poderá ser mais rápida e intensa que no documento mais antigo, se este for guardado em um arquivo fechado e em uma sala climatizada.
Mesmo lançamentos realizados num único documento podem apresentar restrições em suas datações químicas se tiverem sido produzidos com diferentes tintas. Nesse caso, não haveria como saber se diferenças eventualmente encontradas entre elas estariam relacionadas a diferentes idades dessas tintas ou a diferentes composições químicas originais.
Situações como essas podem gerar inconsistências nos resultados desse tipo de exame. Por essa razão, a análise de anacronismos continua sendo a abordagem mais recomendada para datações de documentos.